MARÃO

 

                                                                                         Gil Monteiro*

 

“ Marão não dá palha nem dá grão”, era o que mais ouvia nas brincadeiras e expressões de miúdo. A palavra enchia tanto a boca, na prenúncia, que tinha de se referir a algo muito grande!

Foi necessário o Sr. Prior de S. Martinho de Anta dar aulas de catequese, na capela da Nossa Senhora da Azinheira para, do alto serra, poder observar as montanhas do Marão! Os tempos livres, durante a aprendizagem da doutrina, eram passados na serrania, quase desprovida de árvores, excepto os famosos castanheiros ao redor da capela. Enquanto jogávamos às escondidas, entre penedos, procurávamos grutas e achados megalíticos (antas), e vejo o Fernando, de mão a fazer de pala na testa, a dizer:

 – São lindos os montes do Marão!

 – Para lá daqueles lados fica o Porto…

Um agricultor, sem olivais ou vinhas no Douro, tratava a primor as pequenas leiras ou lameiros, soutos ou pinhais e cuidava de parcelas de montes, de onde retirava lenha e mato, para as cortes dos animais, e estrume para os campos. O direito de limpar os terrenos, não usados na agricultura, era lucrativo e, por vezes, comprado por vizinhos ou outros lavradores.

Entre os vários prazeres do agricultor, há um que lhe é muito grato: mostrar as suas propriedades aos amigos interessados nas fainas campestres. E, quando ouve um piropo, do tipo: – O seu lameiro da Fonte é muito grande, é um Marão! A sua alma vai ao Céu (!) e quando, na adega oferecer vinho da pipa, ainda “ sonha” que está a ofertar o néctar dos deuses, em terras sagradas!

Só no tempo de frequentar o liceu, em Vila Real, é que palmilhei o Marão. Se nevava pela manhã, à saída das aulas a Foto Marius já apresentava fotografias, na montra da rua Central, e à tarde íamos, pela estrada da Campeã, ver o manto branco!

Tive a sorte de ter bons professores do ensino liceal, o melhor de todos foi o Dr. Catarino Nunes. Lembro o Dr. Godinho, a leccionar biologia e geologia, fazendo um ensino integrado no meio local.

S e os recursos mineralógicos das serras do Alvão (agora mais publicitada) e Marão foram objeto de estudo, principalmente as magnetites, o revestimento vegetal não foi esquecido; os fornos da Boavista e as” pelas” foram bem observadas.

Quem diria, anos idos, que o quartzo da serra passou a dar mais divisas a Portugal, e por ano, do que o vinho do Porto exportado! Falo dos áureos tempos da laboração da fábrica de silício de Bagauste (Régua),no tempo em que tínhamos energia barata e abundante das barragens do Douro. O polo de fabrico de silício passou para o Brasil, onde havia turbinas elétricas inativas, por falta de consumo energético!

Um dia, o Dr. Godinho pôs os alunos à prova:

 – Por que motivo a serra virada para Vila Real é nua e do lado da Pousada tem muito arvoredo?!

Matutando, matutando, um discípulo, lá descobriu o mistério.

 – Do lado do Porto os ventos são húmidos, subindo as montanhas perderam o vapor de água, logo…

Hoje o princípio não é tão verdadeiro, pois há a florestação científica, que conseguiu inverter os dados.

As encostas da Campeã têm terrenos “virgens”, muito humosos e produtivos. Alguns, já foram utilizados na produção de batata, tipo Montalegre. Os resultados foram muito bons, principalmente no uso dos tubérculos para replantar noutros locais transmontanos ou durienses.

 

 

Porto, 1 de março de 2013

 

                                                                                              *José Gil Correia Monteiro

                                                                                             jose.gcmonteiro@gmail.com

 

 

 

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