HARPA

Todos os instrumentos musicais encantam, mas a harpa preleva. O seu aspecto triangular, os feitios dos adornos de madeira, e as muitas e coloridas cordas, parecem dar harmonia sonora, mesmo antes de serem dedilhadas. É tão simpática à sensibilidade auditiva como a lira é à alma poética!

Quando na orquestra ou banda sinfónica não aparece a harpa, fica desvalorizada na sua importância artística. É como num beberete chique não encontrar o Vinho do Porto.

Nas afamadas romarias trasmontanas, havia o despique nos coretos das bandas musicais, frente a frente durante o arraial. O Zé- povinho dançava ou escutava as séries musicais, à volta dos palanques nas audições alternadas. Os aplausos eram muitos e sinceros, e, ainda, estavam para nascer as claques! O Mestre não baixava a batuta, apesar do estralejar dos foguetes da primeira redrada de fogo-de-artifício da noite. Os efeitos sonoros e finais da partitura tinham que impressionar, mesmo com espectáculo pirotécnico começado.

A discussão da melhor banda era feita durante a exibição no arraial, assim era, nas romarias da Senhora da Saúde de Sousel (Sabrosa) ou Nossa S.ª da Piedade de Sanfins do Douro, pelos anos idos das décadas de 50/60. O instrumental utilizado, (timbale, lira ou harpa…) contava muito na avaliação. Esses meios musicais extras, utilizados pelas bandas da GNR, PSP, Mateus ou Revelhe de Fafe, eram um espanto!

Se a lira é o símbolo da poesia (lírica?!) e da espiritualidade, a harpa representa a própria harmonia e os sons celestiais. O percutir das cordas teve origem, possivelmente, no primitivo berimbau africano, hoje tão utilizado em grupos musicais, deu ritmo à luta de Capoeira dos antigos escravos do Brasil.

Apesar de não saber ler uma pauta musical, e não ter ouvido para poder tocar, gosto de ir aos concertos clássicos ou outros decibéis moderados. Nas ocasiões, bem tento motivar os familiares ou amigos, mas com pouco êxito. Bem insisto:

 – Resolve se vais ou não; depois não há bilhetes!

Os concertos, mesmo no Coliseu do Porto, esgotam as lotações. Quando é possível haver um espectáculo extra é uma sorte para os indecisos e atrasados!

Se a música interpreta e descreve os estados de alma, os locais de escuta são templos de meditação, mesmo em recintos abertos somos abanados pela magia dos sons. Quando ouvia a música de Mateus na avenida Carvalho Araújo não era o mesmo que no coreto do Jardim da Carreira, durante as antigas e concorridas verbenas de Verão de Vila Real. Então, assistir a um concerto no interior de uma igreja gótica ou barroca (como vai sendo uso) o impacto forte vai além do transcendente.

O Manuel José, tocando o seu violino, durante a apresentação da Festa da Escola, na Igreja Matriz de Gulpilhares, e já no adro, felicitado, disse:

 – As condições acústicas foram muito boas, e coube muita gente!

Quando chegar à idade de pai ou avô, o Manuel Pedro vai indicar outras razões do êxito da festa.

Aprendia-se na Catequese: “No princípio era o Verbo… “ Criado o Mundo e as suas regras, deu Deus ao homem primitivo a palavra e o uso da fala. Antes já devia saber cantar (!), pois emitia sons ritmados do que ouvia na Natureza, ou berrava para afugentar os inimigos, ou tinha sons para cativar as prezas e passar a poder domesticá-las, Os acontecimentos teriam sido na savana africana, onde a música nasceu?

As melodias chegaram ao Egipto por volta do séc. III a. C. Nas ruínas do palácio de Ramsés, foram encontradas harpas esculpidas. Com a invasão Islâmica da Europa do séc. VIII, a harpa passou a ser usada pelos Celtas. Hoje, é figura de relevo nas orquestras mundiais, e as suas 47(!) cordas são, quase sempre, dedilhas por mãos femininas. Os naipes instrumentais têm, cada vez mais, senhoras e vemos maestrinas a regerem grandes orquestras. Quando veremos homens a tocar harpa e não senhoras? Será que os dedos das damas são mais capazes?

Vou estar atento às emissões do canal Mezzo, para verificar se as orquestras apresentam cavalheiros a tocar harpa!!!

Porto, 22 de Março de 2011

                                                                                 *José Gil Correia Monteiro

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