VOLTOU NA FEIRA DO NATAL

Só quem viveu anos,  ao ritmo do tempo passado numa pequena  aldeia transmontana, pode aquilatar da relevância dos acontecimentos. Ainda o dia da Festa da Santa Maria Madalena estava  para chegar, já o bolso dos miúdos ia guardando os tostões,  para os rebuçados de “raminho”e os pirolitos;  gastos obrigatórios do dia, em que  as garrafinhas de limonada  eram preparadas, pelas  doceiras, com água fresca da fonte da Tenaria.

Quando chegavam os armadores dos andores, vindos de Vilar de Maçada,  começava  a festa da pequenada: assistia à decoração das várias padiolas,  no interior da capela, e   retiradas na manhã do dia da festa;  apanhava os alfinetes perdidos,  e esbugalhava os olhos, vendo as cores dos cetins e espelhos. A paragem do cavalo, carregado de foguetes, em  frente da porta principal do templo,   era um alvoroço, pois o mordomo Américo, antes de os guardar, ia experimentar um morteiro,  na eira de trás da capela! A música da Portela e os padres de Vila Real não iam tardar, incluindo o jovem  orador Sacro, António Maria Cardoso.

 Com a  azáfama de alindar as casas e esfregar os soalhos, e  por mato novo (tojos,  giestas ou fetos) nas testadas da  rua enlameada,  estava próximo o Compasso e a Páscoa. Pela  apanha das castanhas,  vinha o São Martinho e, no rebusco dos soutos, era a matança do porco e  os serões à lareira  (comido  o caldo de cebola e as castanhas cozidas e tostadas,  no assador de furos de Bisalhães, no final da ceia,  e,  após a reza, tinha  lugar a leitura dos fascículos de livros, chegados no correio, ou  outros contos e historietas).  

O tempo do Natal era indispensável  e mágico. Mas, para as crianças a feira de São Martinho da   véspera  era  importante , pois recebiam as prendas  antecipadas  (piões, brinquedos de lata ou madeira e  o rapa, e os confeitos e os pinhões de comer e jogar! Só o toque da sineta,  para a missa do Galo, fazia parar os renhidos jogos nocturnos  de   rapa-tira-     põe-deixa,  da noite de Consoada.

 A feira natalícia, em S. Martinho, continha de tudo. Era a mais forte do ano. Não sendo propriamente  de  gado, até o José Manuel Beiço-Rachado fazia gala de lá ir mostrar o seu famoso rebanho de cabras, peritas nas  fugas às multas da GNR. Bastava ouvir o silvo do seu  lábio leporino, a  cabra morinha,  líder do rebanho, corria  atrás do dono, as outras seguiam o exemplo,  deixando as patrulhas da guarda de papel da multa na mão e  a ver navios!  As correrias,  pelos montes e vales,  eram  um espectáculo!…

O  Donio, tendo ganho uns bons patacos,  com os bois nas carregações de  pipas de vinho fino,  no Pinhão, comprou uma junta nova (animais lindos e possantes). Era fatal!,  tinha  que os ir mostrar à feira: despertar inveja dos concorrentes e  ficar a saber quanto podiam valer.

       Levou o filho mais novo, já apurado para a vida militar, a puxá-los por uma soga, presa aos bonitos  cornos dos   animais.

Enquanto o pai ia conversando, com interessados e outros carreiros, o Manuel ia admirando as moças. Ao  olhar uma,   teve um clique e,  envolvido por um aroma mágico, quase largou os bois,  para ir  atrás da linda rapariga   de Fonteita. Teve sorte:  os pais dela pararam ao lado, interessados em duas ovelhas de lã merina, desconhecida na aldeia  e arredores.

Durante o apalpar da lã,  e o  lombo das ovelhas  pelo pai,  a filha fingia mirar a  junta de bois, a fim de poder  catrapiscar o moço de Roalde. Proferiu  as palavras mais custosas e gostosas da  sua vida. – nunca pensou ser capaz de tal feito!

Depois da  Missa de Roalde  de  Domingo,  foi o encontro  e  primeiro dia de namoro, apesar do espanto  da tia acompanhante.   Nem Fonteita,  Vessadios ou Sobrados tinham o privilégio de  ter sacerdote disponível para a missa dominical,  só Roalde, com rendimentos  vindos de montes de  termos  legados,  podia suportar o custo.

E o perigo do Manuel  ir namorar a Fonteita?  Nada fácil!, tinha a possibilidade de  apanhar um arraial de porrada ou ser  corrido à pedrada. Portanto,  passou a  usar a táctica da abordagem:

Começou por se dar por passante  para a Régua,   e  entrar na taberna do Elias,  pagando uma rodada de copos de vinho  aos presentes;  conseguiu, na saída da tasca,  ver a conversada, mas sem abrir a boca!   

Em segunda tentativa, armou-se em comprador de feno, ” incumbido”  pelo pai,   por  a colheita  de penso para o gado,  ter sido fraca,  pois até a fonte do Barbeito deixou de deitar água, sendo preciso tirá-la ao balde, na rega dos lameiros! ;  teve, assim,  coragem de ir a casa da Alice,  a troco de poder comprar feno ou canas de milho.

Num domingo à tarde, acompanhado por um  respeitável  primo, pagou a multa na taberna do Elias, e passou a poder, mesmo às escondidas,  namorar na  terra alheia.

Do paraíso caiu no inferno, aquando foi  do conhecimento do pai da Alice.   Sem bater na filha, dizia furioso:

 – Não, não e não, filha minha nunca casará com semelhante rapaz. É rês de má família. O pai e os irmãos são arruaceiros de feiras e romarias! Ninguém  quer conversas com os Donios de Roalde! – barafustando  para a filha, mulher, amigos e conhecidos.

Resultado:

A  Alice foi “deportada”para Lisboa, onde a Soqueira a entregou, em casa  rica,  como criada de servir.

 – E agora?!  – arrepelava-se  o namorado. Mas,  como sabia ler e escrever…

O Manuel  chegou a frequentar a  4ªClasse, na Escola de S. Martinho, não sendo levado a exame, por  o Professor Antunes não o achar muito bem preparado,  e passar pela vergonha(!) de ter um aluno reprovado,   no exame em Sabrosa!

Graças aos familiares da Emília Soqueira, conseguiu a morada de Lisboa,  e passou a  escrever cartas de amor.  E receber as  respostas ?, se a conversada  era analfabeta!?  Só quando o Zezinho, filho da patroa, aluno da 3ª Classe da Escola do bairro lisboeta  de Alvalade, passou a  confidente, houve carta cá, carta lá!  As missivas ditadas eram mais da  autoria do escrivão do  que da enamorada.  Quando as lia, antes de as meter no envelope, o miúdo  sentia-se gente grande!

As  carta, levadas  pela Maria do Correio de S. Martinho para Roalde, tinham  semanas de percurso. O Manuel  esperava, como cão de guarda, que a D. Mariquinhas do Alferes abrisse a saca de pano forte e de boca metálica, fechada à chave. Quando a leitura do correio era feita na varanda, a ansiosa carta caia do céu nas mãos do destinatário! Era lida,  e relida, no  tempo de ir com os bois ao pasto ou levá-los  a beber,  na fonte da Tenaria. Sempre que encontrava nos montes outros moços de bois, abria as  cartas  recebidas  ou a enviar, lia-as   para os mais novos, feitos basbaques. Mostrou um  precioso envelope, que iria levar ao correio da sede da freguesia, tendo escrito,   ao lado da direcção,  o seguinte:

“ Vai-te carta, vai-te carta,

Por entre os pinheirais.

O meu coração fica a dar  muitos ais “ !

A correspondência  acabou. Aos pedidos de Fonteita, a patroa apanhava as cartas e o Zezinho deixou de colaborar. Só no Verão, pelas festas e romarias, os “emigrados lisboetas” davam parcas notícias : andava triste e não  saia de casa,  e nem namorava!

Passado o ano, voltou à feira das vésperas do Natal,  à  frente de outros bois,  agora de raça maronesa, possantes e lindos de cornadura. Como ficou para a parte da tarde, depois do pai, foi  petiscar à loja do Zé Ferreiro. Ao ver gente conhecida de Fonteita,  a fazer o mesmo, ficou intrigado. De coração a pular, moita calado, esperançado que melhores dias  haviam  de vir.

Alarido na feira! :  chegou a carreira do Tabuada, vinda do comboio correio do Pinhão. Mal o Zé Cobrador abriu a porta, quem saiu primeiro?, a Alice!

O Manuel  larga a soga dos bois mansos, salta  louco  a abraçar a sua amada!  À surpresa, ao  silêncio, seguiu-se  a ovação dos feirantes  – ninguém ficou  indiferente a tanta ternura e amor!   

  Porto, 11 de Novembro de 2010

                                                                             *José Gil Correia Monteiro

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