CINEMA

 

– O cinema já lá vai ?!  – dizia a D. Quininha  da varanda,  vendo a Maria Carrapata e o homem  à bulha, na rua.

Era  pequenito, quando do patamar de casa, ouvi a  palavra nova  – cinema – , e de ter  perguntado  o que queria dizer.

 – São fitas, parecidas com as comédias de Guiães (famosas  representações teatrais, durante as festas  da aldeia) – disse a avó Ana, chamando à ordem os  Carrapatos, e  não ter de  falar dos  filmes, que já tinha  visto em Vila Real.

Agora digo,   as cenas de rua e a  zaragata  seriam precursoras dos filmes do neo-realismo italiano de Roberto Rossellini,  em Roma, Cidade Aberta,    ou da famosa série de cobóis  esparguete, “westerns”,   de Sérgio Leone, como em  O Bom o Mau e o Vilão!

Graças aos exibidores  ambulantes de fitas,  almocreves de imagens, a  aldeia teve   o privilégio de poder  ver cinema cedo.   E porquê?  No lugar tinha  um salão  que dava para se poder  assistir às  projecções de filmes.   Como foi  possível?  Simples:

O  Manuel Lapatão, regressado do Brasil com uns patacos, além de comprar umas terras, resolveu aumentar a casa dos pais, construindo o seu  “palacete”. Não sendo  bafejado pela  sorte  como  D. João V,  na construção do Convento de Mafra,  acabado o dinheiro do Brasil, acabaram as obras (!),  ficando o piso  novo por dividir.  Eis,  pois, a existência de  um salão para festas nocturnas, e  à luz do petróleo!  Com o advento do cinema era  só por um pano branco na parede  e a lanterna mágica  ligada a uma  bateria;  a sétima arte chegou cedo a Roalde! , ainda que alguns espectadores presentes  tivessem de  levar  banco. Como de  pé  via mal, passava as curtas sessões ao colo de  familiares  ou  outros. Quase todas as  pessoas do lugar  e arredores iam assistir,  até as tabernas fechavam!  O Isolino, ao ver  ovelhas no ecrã,  dizia  para a mulher:

 – Estamos aqui, e ainda nos roubam alguma das nossas!…

Ao serem vistas  as  imagens,  e,  como  todos os anos,  a aldeia recebia o rebanho de ovelhas do Sr. João,   vindo  de Seia,   em transumância da Serra da Estrela,  era um espanto poder  observar um  rebanho,  pastor e  cães  de coleiras de pregos,  e a neve, em  imagens da parede!  Até, na  interactividade,   a  Ana do Viúvo disse  para o  pastor,  quando o viu passar de um  carreiro e entrar  no  monte  coberto de neve:  

 – Cuidado!?… Não molhes  os pés…

Foi no Teatro Avenida,  em Vila Real, que vi o primeiro filme – Capas Negras – acompanhado pela  D. Vitórinha, na casa da qual estava  hospedado para frequentar o Liceu. Como as exibições se repetiram, vi-o  novamente,  em matiné , e passei a ser cinéfilo, tanto quanto era possível à bolsa de estudante. Com a lei das sessões  para adultos, o hábito ia acabando, apesar dos vários truques de  ludibriar porteiros e  polícias!  Um : comprar um bilhete,  e vários candidatos púberes, um de cada vez a  tentarem  a  entrada, aproveitando a     confusão,  e  em bico  de pés; se tinha  sucesso, outro  bilhete era  comprado,  e novo ensaio feito.  No final, havia sempre um adulto que comprava e utilizava o  bilhete sobrante.

Os filmes de cobóis, de aventuras e históricos eram os mais apreciados. Os documentários e os desenhos animados faziam  o melhor da sessão cinéfila.  Quem esqueceu a magazine de notícias “ Assim vai o Mundo”, e a voz do locutor brasileiro?! E as  cenas musicais  de Peres Prado?  E de Xavier Cugat  a dançar com uma vamp, regendo  a orquestra!? E os desenhos animados, que faziam bater palmas à plateia?!

No primeiro mês de estudante na cidade do Porto, esgotei os filmes em exibição, chegando, com outros caloiros de Vila Real, ver uma fita no cinema Vitória de Rio Tinto!

Tive o gosto de,  passados anos, ver bons filmes,  nas manhãs cineclubistas  do cinema Batalha e outros locais, e colaborar na feitura de  filmes de oito e super-oito milímetros.  O Cinema  Amador  teve muito prestígio,  e ganhou  prémios internacionais.

Agora, no tempo dos filmes  de violência e de efeitos especiais disparatados, vou cumprir a promessa:  levar o neto, Manuel Pedro,  a ver o último  Harry Potter,  suportando o barulhar das pipocas!

Porto, 7 de Dezembro de 2010

 *José Gil Correia Monteiro

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