É TRISTE NÃO SABER LER

Quando fixei arraial na cidade do Porto, para frequentar a Faculdade de Ciências, tinha por suposto dos portuenses:

Eram ilustrados; viviam dos negócios e comércio; não passavam necessidades, remediados ou ricos; andavam em autocarros e em eléctricos, que tinham  campainhas para avisar as pessoas da rua – lembrando  o ferreiro a bater o aço!

As gentes eram bem falantes, ainda que “à Porto”.  Na terra de  doutores e engenheiros, não havia falta de instrução. Os cinemas e o Teatro Experimental do Porto tinham lotações esgotadas! Nos cafés liam-se jornais ou os estudantes os fascículos das sebentas, além dos convívios  e das bilharadas. O café Avis era o protótipo dos estudantes endinheirados e o  Estrela dos remediados  O Imperial servia os negociantes e funcionários, da cidade da  azáfama e do trabalho. A leitura dos jornais, nos cafés,  era uma vista de olhos   para saber as últimas, ver o artigo de Fundo e os de opinião,  a beliscarem  a política. A pressa era tal que os ardinas emprestavam os vários jornais,  a troco de gorjeta,  no retorno.  À noite, a passagem das notícias no placard do edifício das Cardosas tinham muitos leitores. Logo, a praga do  analfabetismo não devia existir nos tripeiros.

Não era necessário frequentar os Fenianos ou o Ateneu para se apanhar banhos de cultura. Ao transmontano – duriense, para cá do Marão, bastava o bulício da cidade, o passeio dos Tristes, os cinemas, a Ribeira, a Foz do Douro, para  receber  outro modo de estar e habitar,  sem esquecer as necessidades do antigo  meio,  e de  Miguel Torga escrever  Doiro,  na vez de  Douro, e  o gosto de ver filmes para  a   adaptação ser efectiva e aceitar os  novos actos de culto.

   Se os cinemas da Baixa, continuavam com filmes vistos,  era preciso apanhar o eléctrico para ir ao  Vale Formoso ou ao Vitória. E as Matinés? Quando acabavam as frequências, as do Carlos Alberto  tinham mais espectadores do que os anfiteatros das aulas! Aos domingos, assistir às saídas do Batalha ou Olímpia era um ritual! As  do “S. Charles”,  sendo baratas,  e passarem dois filmes, e tão perto da Faculdade, enchiam-se de estudantes ( só rapazes ) , trolhas   e caixeiros de folga ou  desempregados. Eram muito  animadas e divertidas. O interagir dos espectadores com as imagens   era frequente. Apenas um exemplo: o artista entra incauto em casa, onde o vilão,  escondido, o  esperava atrás da porta!, logo se podia ouvir:

 – Cuidado!?… O bandido está detrás da  porta!

Ir às matinés do cinema Trindade não era normal.  Os bilhetes serem caros e  gente chique:  estudantes abastados,  Mães  Família (com as  filhas)  e “diplomatas”!

Um dia, de mesada mais folgada, comprei um 2º balcão. Dia aziago. Nas cadeiras, ao lado, um espectador lia as  legendas para o outro(!). Fiquei tão admirado e incomodado que perdi o preço do bilhete e o filme. Abandonei a sessão, pensando:

Como é  triste não saber ler! …

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