AMENDOEIRAS TURÍSTICAS

O Algarve está diferente. Muito diferente. Foram precisos cinco anos, sem o visitar, para observar  as mudanças de agora.

Os hotéis, cada vez mais  em maior  número,  passaram a ser  construídos longe das praias – mistos de terra e mar!

Ainda que os ocupantes sejam nacionais,  em quantidade apreciável, as instalações e os serviços estão programados à inglesa. As informações são muitas  em inglês e  poucas  em português. Está na moda os hotéis não receberem crianças. Será egoísmo de adultos? Ou o marketing? Resultado: avós de férias tranquilas, com piscinas (uma de água quente), saunas, banhos turcos e outros privilégios dos apregoados  SPAs, enquanto os filhos e netos têm de optar pelos apartamentos.

As modernas instalações hoteleiras dispõem de bares, restaurantes; as espreguiçadeiras das piscinas e a  animação desportiva  fazem  esquecer a praia. Mas há autocarro próprio para os hóspedes poderem ir à praia, visitar  locais ou compras. As saídas turísticas e a  animação nocturna estão na “ementa”. A moda das promoções está por todo lado! Por vergonha, não baixam mais os preços dos almoços e jantares, mas oferecem talões de desconto de nove euros por refeição!

O ordenamento territorial do Algarve melhorou. Junto aos novos empreendimentos turísticos, as  zonas verdes foram conservadas e preservadas, mesmo quando os novos  arruamentos e as rotundas as encostaram à parede! Os pinheiros mansos continuam a fazer sombras e produzirem pinhas com pinhões, a que ninguém liga. Os campos agrícolas estão em constante pousio. As fruteiras abandonadas. Ir à praia a pé dá para colher frutos, como figos e fava-rica, nos terrenos não vedados.

O ambiente é contrastante nos aldeamentos turísticos de pequenos apartamentos (familiares). Aí sim. As árvores antigas alindam os relvados, à volta da piscina e zonas  de serviços. As centenárias oliveiras arrebitaram e as amendoeiras, bem tratadas e podadas, oferecem os frutos (agora) e as belas flores na Primavera!

 – São amendoeiras turísticas!  – disse baixinho o Avô para o Neto, enquanto mostrava um  conjunto de frutos recolhidos e  saboreava  um refresco, perto de uma.

Milhares de outras amendoeiras, abandonadas e tristes,  esperam ser abatidas,  por razões económicas, como já aconteceu a muitos pomares durienses, alguns relativamente novos. … “ E os bolos de amêndoa  continuam a ser tão bons!…” – pensa o Avô.

Não consigo regressar do Algarve sem trazer fava-rica, apanhada no campo ou nas plantas decorativas das praças e jardins. Continuo esperançado de as poder preparar para as mastigar, como fazia, em Provesende, nos intervalos da Escola Primária. No estabelecimento da D. Elvirinha eram  compradas por dois tostões o cartuchinho!  Bem as procuro, agora, e nada… Só numa feira de frutos secos de Faro, depois de tanto indagar, um expositor de variegadas doçarias,  balizadas  pelas tais favas, teve a amabilidade de as retirar e oferecer!

Como aprendiz cibernético, estou a coligir dados para tornar comestíveis os frutos trazidos. Será que as receitas da Internet vão resultar? Caso consiga, irei recordar a Praça, o largo da Fonte e o Palacete da Escola, bem como a Boa Gente de Provesende: trabalhadores da Quinta, Mário  Barbeiro (emigrou para o Brasil), Professor Matos, Dr. Sapage, Farmacêutico Cascarejo, e outros mais… ; e o convívio de colegas e amigos.  

É  espantoso!, não se apanham as nozes ou amêndoas das plantas abandonadas, nem as  azeitonas  dos olivais de menor produção; os cachos  das vinhas antigas ficam de pendurados até à poda, caso seja efectuada.  Quem se lembra de andar ao respigo e apanhar os bagos,  atrás das vindimadoras?

Pesaroso pela triste sorte das amendoeiras, tive um lenitivo: na ida recente a Foz Côa, em visita ao Museu de Arte Rupestre, o João, observando os terrenos das bermas da estrada, disse:

         – Foram plantados novos amendoais!!!

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