O MEU SANTO ANTÓNIO

Claro, vou escrever sobre o meu Santo António de  quando era pequenino. Porquê? Apenas duas razões fortes:

É na infância que temos a aquisição de conhecimentos em maior grau: eficiência e  retenção na memória;  as Festas de Santo de Vila Real serem o máximo das várias romarias e  feiras.

Não admira, pois, haver tantos comunicadores ou escritores a evocarem os tempos em que eram  crianças.  Um exemplo: Miguel Torga narra a ida ao Bazar dos Três Vinténs, em Vila Real, onde os pais lhe deram uma prenda, por ter ficado distinto no exame da 4ª Classe, feito em Sabrosa e comemorado em S. Martinho de Anta.

Não é preciso, sabendo das potencialidades das crianças, chegar ao exagero de começar a “treinar”um atleta olímpico ou um músico aos dois, três anos! Mas, em abono da verdade, a carta de curso duma licenciatura começa no Pré-Escolar e na idade dos porquês. Portanto, o mérito do Educador(a) de Infância é maior do que do Professor Universitário. Os Jardins Escolares (obrigatórios) devem ser mais valiosos (um  bem social) do que muitas Universidades. O analfabetismo e a iliteracia foram, e ainda são, as causas seculares do atraso da nossa sociedade.

As festas de Santo António duravam dias. Criança de Roalde divertia-me ao  ver passar a gente festiva, na ida e vinda. A situação privilegiada da aldeia dava passagem a muitos romeiros e feirantes de Além-Douro (Tabuaço ou S. João da Pesqueira). Via o  pai, montado no cavalo ajaezado, e a mãe (ia a pé) dizerem adeus,  no fundo do povo. Iam para Vila Real e ficavam hospedados na Pensão da  Cardoa,  cujo edifício era do avô Monteiro, solicitador na cidade.                                                                                                  

No regresso dos pais é que era a grande festa. As prendas chegavam! Os brinquedos, as fatiotas novas e os chapéus de palha (!) iam aparecer  para distribuição aos  4  filhos da casa,  enquanto a tia Maria ouvia falar das bandas de música, marcha luminosa, foguetes de lágrimas e números de circo.  A ansiedade era tal que as tropelias ouvidas dos famosos palhaços Irmãos Campos deixavam de interessar. Óh!, as prendas chegavam: a flauta e a ocarina(cuco) de barro,  pintados  de tons garridos e davam sons! Até a  carroça de lata  tinha um cavalinho!… E o  chapéu de palha? Não tive.  Calhou-me um de pano branco de rebordo até às orelhas, como agora usam os garotos na praia. O odiado quico passou a talismã (único no lugar).

As compras davam para o ano. Os animais adquiridos adoptavam bem a nova Terra. Só meia dúzia de ovelhas  de lã merina, com o calor, desapareceram da Fonte do Monte, sendo encontradas , dias depois, nos montes de Fonteita!

Vivi o Santo António com intensidade, enquanto aluno do liceu. Começava por ver a montagem das barracas, ir às  verbenas do Jardim da Carreira e  ao Circo, não esquecendo o Poço da Morte! Apesar de ser analfabeto musical, não faltava aos concertos da banda de Mateus (Velha) ou da Revelhe de Fafe. E os treinos e corridas de motos e automóveis? Era um ferrinho! Os heróis não eram o Casimiro de Oliveira ou o   Vasco Sameiro era o Antoninho do Talho, mesmo que o seu Mercedes vermelho desistisse na corrida!

                Ao politeísmo grego ou romano,  aprendido no liceu, opunha os meus santos, começando pelo S. Roque e Santa Maria Madalena, venerados na capela de Roalde. Conforme os preceitos religiosos vinham: Senhora da Saúde (Sousel) ; Senhora da Piedade (Sanfins do Douro) ; Senhora da Pena (Mouçós) ; Santa Eufémia de Cristo (Parada do Bispo-Bagauste) , onde fui com a Mãezinha, assim chamada por ser viúva e viver com minha mãe, cumprir promessa de salvação de porco para a ceva.

Os Santos do Olimpo eram dois : Nossa Senhora da Azinheira da capela do alto da Serra abençoava e o Senhor Jesus da Ermida de Provesende protegia os trabalhos agrícolas e conseguia fazer chover nas grandes estiagens! Quando desterrado, para o efeito, da sua Ermida para a Igreja de Provesende, como aluno da Escola da Terra,  ia na procissão, caíram os primeiros pingos de chuva!

Porto, 2 de Julho de 2010

  *José Gil Correia Monteiro

  (jose.gcmonteiro@gmail.com)   

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