O MENINO QUE GOSTAVA DE AMEIXAS

O João Pedro aprendeu a andar de socos de atanado. Até essa altura, só andava de botas, descontando  o tempo que calçou soquinhas de verniz, oferecidas pelo Natal. Garoto desempenado e ladino de seis anos, e com semelhante calçado, passou a conquistar a rua, as quelhas e os quintais da pequena aldeia transmontana. Os socos, na vez das botas mal tratadas, permitiam e consentiam as fugas da vigilância da Avó materna, viúva,  a viver com os pais, e que  tratava por mãezinha, a  mãe cuidava  dos campos e dos  gados. Estava calçado  para andar  na rua enlameada e partir o gelo das poças de água. O Inverno rigoroso tinha um lutador!

Era preciso começar a explorar a aldeia e arredores. A  mãe, depois da ceia, após as orações, e antes do serão ( estórias, contos ou leituras de fascículos ), ameaçou :

– Deixa vir o tempo bom!  Vou pedir ao Sr. Professor Cabral para te meter na Escola. Na rua só fazes asneiras! …

A figura do Sr. Cabral metia respeito. Quando o via, acompanhado dos alunos, no caminho da  Escola da freguesia, tinha de dizer :

– Vossa Excelência, passou bem? – E  ouvir :

– Bem obrigado. E tu? – Encolhido, não sabia o que dizer …

O ar ladino do João Pedro ficou murcho com o recado(!) da mãe:  pensou na perda da liberdade, por ter que ir para a Escola do Sr. Cabral, ainda que gostasse muito da Sra. Professora  Teresa, esposa do professor, por  ter ido à sua  sala de aula,  acompanhando a irmã mais velha. E até já conhecia as letras e os números, pelos  livros dos irmãos,  e ensinados  pela mãe, no patamar das escadas graníticas, enquanto vários convivas apanhavam o sol de Inverno, e  durante os domingos e dias santos. Contava  até cem!

A ida efectiva para a Escola só teve  desenlace dois anos  depois. A Mãe preocupada (o Pai faleceu, tinha seis anos e meio),  com as longas caminhadas,  do  franzino benjamim,  para a Escola da freguesia,  empenhou-se em pedir professora para o lugar da Tenaria, uma vez que tinha sido retirada, apesar dos  alunos  serem muitos. Não conseguiu uma Professora, mas uma Regente Escolar, só no ano escolar seguinte. O João Pedro perdeu um ano lectivo.

 O que valeu foi depois  o trabalho desenvolvido pela D. Albertina, regente escolar habilitada com a  4ª classe,  ser tão eficiente que nunca perdeu outro.

Dois anos sem escola!, viva a brincadeira; e teve tempo para explorar os arredores do povoado. Consegui, mesmo, conhecer o lugar de  Paços,  para lá dos primeiros montes.

Ver os caramanchões e outras árvores ornamentais à volta do fontanário e lavadouros, em  Paços,  foi ver um admirável Mundo Novo! … As lavadeiras batiam a roupa de pé, enquanto na  Tenaria ficavam de joelhos!

Os novos socos de cabedal foram bem usados e gastos, apesar das biqueiras protegidas de latas  e de  tachas nos  paus. Os lameiros, vimeiros, hortas , ribeiros e poças de água não tiveram descanso! No pino do Inverno,  levantava-se cedo para ser o primeiro a partir os “vidrados” de gelo nas poças de água da rua, e  antes dos carreiros passarem com os bois. Enquanto as tachas as tombas dos socos iam fazendo tlim, pensava:

– Ai que prazer(!?) E  não poço  fazer o mesmo aos vidros!

Mas, o melhor  uso dos socos estava para acontecer, quando caísse uma grande nevada. Aconteceu. Ao lusco-fusco da manhã, saltou estremunhado da cama ao ouvir dos  irmãos:

– Vamos caçar coelhos na neve.

Foi com os irmãos e o moço da casa. Só o cão atrevido conseguiu chegar em primeiro aos montes da Eirinha. Munidos de varapaus fortes (seriam estadulhos dos carros de bois?) ,  começaram a esquadrinhar a neve dos pinheirais, se  ouviu a voz do Silvino:

– Acabou a caçada!…

O João Pedro ficou triste como a noite! Encoberto entre giestas e tojos,  sentido prazer de ter  os socos enterrados na neve,  a voz fê-lo arrepiar.

“ Seria possível voltar para casa com as mãos abanar?! E sem ver um coelho?”

O  Silvino disse para o Manuel: “ Os pingantes das árvores, devido à neve derretida,  apagaram  as pegadas dos coelhos à volta das  luras “ . Ficou  triste, mas convencido.

– Não há que fazer!, vamos embora – sentenciou o António.

Lagartixas, borboletas, grilos, ralos, e mais bicharada, eram objectos de estudo do nosso herói. Mas, nunca conseguiu apanhar um perdigoto pequenino, mesmo com  a ninhada quase aos  pés, alertada  pelos sons aflitivos da progenitora. A camuflagem perfeita deixou – o  perplexo. Mas, a  mais intrigante observação foi   a cauda da lagartixa aos saltos, separada do corpo!

Na exploração dos quintais era eficiente. As macieiras, pereiras, nogueiras, algumas roseiras, junto aos muros,  e às couves galegas, eram estimadas. Só nos terrenos mais próximos das casas,  e escondidos da canalha,  é que  tinham algumas ameixoeiras de frutos tardios.  

  Os quintais eram tão retalhados  que alguns tinham apenas uma macieira e, por baixo da copa, ainda se davam batatas do cedo ou favas. Quando o vento ciclónico derrubou a macieira,  a junta de bois do Filinto consegui endireitar a copa, deixando o tronco  inclinado! Passou a ser o escorrega predilecto da pequenada, quando o estado do tempo ou tempo não permitiam o uso do escorregadouro da Fonte do Monte, na ladeira do  vale. Só nos mais  requintados e recatados terrenos tinham  ameixoeiras.

Ir à cata de nozes, maças, peras ou uvas não dava  grande luta.  Agora ir às ameixas dos vizinhos, conhecidos ou familiares,  era um assalto! Fruta tão requisitada  só existia  perto das casas ou nas hortas especiais – caso a do Professor Cabral, nos lameiros da Urtigueira.

Os exploradores João Pedro  e o  primo Fernando,  da mesma idade,  passaram a pesquisar as propriedades dos arredores – já tinham força nas pernas e certa autonomia familiar. Os irmãos mais velhos iam para a Escola  e os adultos estavam  ocupados nos trabalhos agrícolas.

Começaram por esquadrinhar a propriedade do Tovim  do alferes Coelho, enquanto estava em águas em Vidago. Lindo lugar. Era uma  pequena quintinha  onde  nada faltava, desde as plantas ornamentais (alecrim e alfazema)  às uvas de moscatel de Favaios e,  claro,  ameixas e abrunhos. Só a Rainha Cláudia não tinha frutos. Seria aneira ou sítio muito frio? Tinha que esperar a oferta, vinda da quinta de Provesende, acompanhada dos figos lampos.  

As ameixas rainha Cláudia são as melhores do mundo(!) “As pequeninas são como torrões de açúcar”.  – disse o João Pedro ao Fernando.

  Longe do povoado, entre as  vinhas do Ferreira da N.ª Sr.ª da Veiga, havia um ribeiro, que abastecia a horta de água, e era marginado por vimeiros e, no terreno mais seco, tinha ameixoeiras e abrunheiros. Grande azar: na segunda exploração ao local, apesar de não haver ninguém por perto, foram denunciados! Ou frutos meios verdes e dentados, deixados por terra,  levaram  o Sr. Ferreira a dar conhecimento da  transgressão aos pais?!

Quando foi repreendido pela mãe, pensou:

– O dente (canino) arrebitado deixou marcas? – passou a calca-lo mais vezes,  para o interior da boca,  como tinha aconselhado a irmã.  Já haveria aparelhos dentários?

As árvores dos quintais da Trindade e do Faria eram inexpugnáveis à catraiada. O Faria tinha um cão tipo Serra da Estrela, oferecido por o Sr. João Pastor, quando regressou a Gouveia, pós a transumância dos rebanhos,  nos montes e lameiros da Tenaria, metia respeito! A Trindade era vizinha…

A Maria do Soudel vivia no fundo da quelha e tinha um quintalinho por trás da casa do João Pedro e num plano inferior. A ameixoeira, única ocupante do terreno, era antiga. Só subindo à árvore era possível colher os frutos escuros e deliciosos. E tempo para isso?

Na apanha das ameixas (ano de seca e pouca fruta),  o Chico e a Maria Soudel pediram a colaboração de dois miúdos  crescidos.  Como não tinham ou sobrinhos, faziam  oferta de  frutos pelos  mirones.  Mas, nesse ano…

Quando se preparam, num fim de tarde, e Germano encostou a escada árvore para a apanha dos frutos, espreitando por entre as folhas da copa,   disse:

– Não tem nada. Já foram tirados. – dizia ,enquanto subia e vasculhava alguns frutos.

– Como? , como foram roubadas?! – gritava a Soudel.

O João Pedro, na roda dos ouvintes, deu uma cotovelada ao Fernando, e piraram-se pela quelha,  para a rua principal e única(!), ainda ouvindo:

  – Vou fazer queixa à Sr.ª Professora Albertina, apenas as aulas abram. Só os alunos tinham tempo para trepar à árvore.

Não sabia que a sagacidade dos nossos pequenos heróis os levou, por um estreito quelho, a um parapeito, no cimo do qual, se chegava às ameixas!!! – foi comer e oferecer…

Na aula da D. Albertina – era a primeira a que assistia – e enquanto a vindima do Sr. Ferreira  fornecia  uvas para os lagares da cave da Escola,  ouviu:

– A fruta deve ser pedida e não roubada …

– Se pedirem ao Sr. Américo, ele dá cachos de uvas. Não é preciso tirar da carroça do cavalo, às escondidas!

No intervalo da manhã, aos descerem as escadas para o terreiro, os nossos pequenos heróis juraram:  nunca mais andar  às ameixas.

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