HORTA PEDAGÓGICA

Longe estava de pensar que o almoço com a Aida tivesse o remate:

 – Obrigado por este bocadinho. Adeus a todos. São horas de ir tratar da minha horta pedagógica! – disse apressada.

Ao ouvir tal despedida, levantei – me, como picado por alfinete, pensando:

 –  É verdade? Será possível?!

Ainda que a Aida tivesse deixado de leccionar, na sua Escola do bairro de Aldoar, teria continuado a orientar e a ajudar a colega nova, herdeira da sua hortinha escolar?  Mas qual o quê?,  gargalhada geral!,  era a horta da Internet! … Estava na hora de pôr a galinha no choco, pois os ovos “comprados” não podiam esperar,  e o lucro ia por água abaixo!

A perplexidade deu para concluir: a Aida, como milhões de internautas, devia ter tido origem rural, da qual nunca se libertou.

Quando a vi meter no carro, estacionado em frente ao mar de Matosinhos, levou – me a transplantá – la para antiga visita ao  São Leonardo de Galafura, onde as ondas do mar parecem as ondas da serra, e  o almoço no restaurante do miradouro os  tempos idos. Ou na Magalhã  recolhendo as galinhas,  ao poleiro da avó Aninhas,  de papos  cheios  de ervas e bichos da lameira pública! A galinha pedrês, a chocar os ovos no cesto velho vindimeiro, esperava as companheiras.

Ainda bem que há a realidade virtual. A solidão seria mais infernal e o isolamento dos antigos rurais prelevava. Se aos alunos do primeiro ano de escolaridade têm direito a computador o mesmo devia acontecer para os idosos aposentados.

“É preciso fazer pela vida”, afirmava o velho Balhestra para a  roda dos ouvintes, sentados nas escadas do cruzeiro de Roalde. “Quem não trabuca não manduca, nem é criatura de Deus”, concluía. Nesse tempo, a reforma da profissão ainda era um sonho, e o lazer efectivo uma quimera!  

Os acontecimentos são como as cerejas,  encadeados uns nos outros. No Domingo seguinte,  fomos passear para o parque da Quinta do Covelo na mira de se poder observar a horta pedagógica do neto,  Gonçalo Luís,  a frequentar um Colégio da freguesia de Paranhos. Entre tantas pequeninas  hortas,  não conseguíamos identificar a do Colégio; logo, um guarda vigilante, zeloso e contente, prestou esclarecimentos, rematando:

 – Os meninos levam alfaces e cenouras de cada horta para casa!

Numa estufa ao lado, vimos os materiais do “workshop”, onde até fazem a reciclagem do papel.

 – Se fosse hoje, tinha comprado o último andar. Podia ter lá oliveiras – dizia o Zé Sobral,  enquanto mostrava os limoeiros com fruto da marquise.

“Acredita”, disse eu – ainda  vamos ver prédios da Baixa Portuense, os de óptimas clarabóias, adaptados à produção hortícola, e as de água e do caulino da S.ª da Hora a produzirem cogumelos!

Quando retorquiu – já vi notícias dessas, e de arranha – céus,  construídos para o efeito!

Serão os novos Jardins Suspensos da Babilónia?!

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2 respostas a HORTA PEDAGÓGICA

  1. zulmira Pereira diz:

    Boa tarde, Dr. Gil!
    Bem-vindo ao admirável mundo dos cibernautas!
    Obrigada pelas crónicas com que nos presenteia. Narrativas que nos introduzem no maravilhoso mundo das nossa infâcia, fazendo-nos viajar até aos tempos da nossa meninice!
    Um grande abraço!

  2. O corpo cala e a alma aproveita para pular!

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