AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA

O texto que vou escrever é consequência da reflexão sobre a actual paisagem duriense. Dá para interrogar. Será melhor ou pior? (Foi e será sempre bonita).

Em termos de produção agrícola agora é  melhor. Mas, os mortórios e socalcos, de paredes e escadas de xisto,  onde foram parar?! São terrenos,  a perder de vista, de cor barrenta  como as águas do rio Douro, implantados de vinhedos, desde as linhas de água até ao cocuruto dos montes. Ver os novos patamares,  alinhados e serpenteados pelas encostas, ficamos de peito quente de modernidade! Não veremos jamais os cavadores de enxada, nas cavas ou redras, a beberem jeropiga redonda (tirada das borras do vinho tratado levado para Gaia) ,  e a cuspirem nas mãos para aderirem ao cabo do enxadão (enxada de dois bicos compridos).As pás e as picaretas continuam inactivas nos Cardenhos sobreviventes. Os ferros de valeira ou de surribar ainda vão sendo utilizados na plantação dos bacelos americanos  e no remover dos pedregulhos,  não enterrados pelo caterpilar. Agora, com a plantação de mini-videiras,  seleccionadas por castas, é um tractor de broca que faz o serviço!

É triste, na época pascal os montes floriam e ouvia-se cantar os cucos, e  hoje  só vimos vinhedos e alguns olivais mal tratados, nos antigos campos de cereais e matas. Pequenas manchas de castanheiros de madeira,  do tempo dos cesteiros e cestos vindimeiros,  ainda esperam os futuros artesãos de verga.  Até os  amendoais foram destruídos por falta de rentabilidade agrícola – a venda da amêndoa não pagava o trabalho da apanha!

No alto do Poio (Cabreira), o João, a dar conhecimento de mais um arroteamento na propriedade, disse:

 – Daqui a vista da Foz do Tua ainda parece mais linda!

 O surpreendente da visão não é  a confluência das águas do Tua e Douro, nem a ponte da “Arrábida” em miniatura, projectada por Edgar Cardoso, nem o túnel do comboio, é  a mancha verde persistente nas encostas do rio ameaçado de morte!   Se não for  possível salvar as azinheiras, zimbros, estevas e medronheiros da paisagem, haja clemência para  as famosas laranjeiras de S. Mamede de Ribatua!

O João informou: com compra do terreno para a nova plantação (antigo amendoal moderno e abandonado),  são já quinze as anexações ao prédio da Cabreira! – Grande quinta vai ficar!

Só as propriedades grandes têm  condições de  subsistir. Possuem as  máquinas e trabalhadores adequados, e são  próprias para a  futura liberalização do benefício do vinho do Porto. As novas gerações não têm paciência de cuidar da produção de meia dúzia de pipas de vinho. Preferem a vida citadina.  Só os reformados e  ex-emigrantes (regresso às origens) podem salvar a  pequena agricultura.

Nos séculos passados, as enormes herdades alentejanas resultaram da compra dos terrenos pelos lavradores  subsidiados para grandes  produções  de trigo, ficando os pequenos  como servos da gleba! Com o vinho do Porto poderá vir acontecer algo  semelhante?

A agricultura de subsistência  volta a ser preocupante. Será que temos de voltar  à recolecção de  alimentos?!

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