A VIUVEZ

A cor negra é atroz. É a ausência de todas as cores. Está relacionada com o luto e  os buracos negros.

O luto devia ser branco – reunião de todas cores para nova realidade – era um florilégio. Há comunidades que o praticam. Não é inocente representar os anjos de branco.

O preto armazena calor. Será para levar à decomposição dos seres? O fogo é um exemplo de morte e de nova criação. Veja-se o aparecimento de uma ilha vulcânica pujante de vida, passados anos. O negro será o princípio ou o fim do Universo? Os buracos negros das galáxias têm matéria ou antimatéria?

Andar vestido de escuro será sinal de tristeza, melancolia ou penitência? As viúvas negras e os ciganos são exemplos?

Na aldeia alto duriense, onde fui criado, tinha muitas viúvas. Quando o João Rodrigues, carregado de filhos, viu a mulher a descer à terra, no cemitério de S. Martinho de Anta, não sabia que mudava de nome – passou a ser o João Viúvo! Mais: os filhos passaram a serem conhecidos por: Zé do Viúvo, Ana Maria do Viúvo ou Eduardo do Viúvo … Os netos devem ter perdido o novo apelido, por terem emigrado para França ou lá nascidos.

“Porquê tantas viúvas e raros viúvos?” E  ouvia-se:

“Nos invernos rigorosos, e na  rega  dos lameiros, metem água pelos  socos, apanham uma  constipação e…”

Entre outras causas de morte prematura, estava o mata-bicho de aguardente, figos secos e naco de broa, antes de cavarem os campos ou vinhas,  horas a fio até à chegada da  tigela de  sopa, pelo  meio da manhã (dito almoço). Ou seriam as semanadas passadas nas cavas ou redras  das vinhas, nas  quintas do vale do rio Pinhão, onde a água-pé e a  jeropiga não faltavam?                                                    

Por nascimento tardio e  benjamim da família, cresci no meio de três viúvas: materna, paterna e mãe. Não cheguei a conhecer os avós e tive a desdita de ficar sem pai aos seis anos. O vestuário negro constante  passou  a causar enfado. Ainda não  posso ver amigas vestidas de escuro que não diga:

 – Tiveste algum azar?

Em pleno século XXI , a pergunta é um disparate, e mais: as novas viúvas andam  garridas, felizmente!

A morte devia ser cantada e não chorada. Os cânticos e as salvas de palmas, durante as cerimónias fúnebres de hoje, são o prenúncio de novas mentalidades. E, como dizia o Bernardino: – Quando deixarmos  ter medo da morte, não é preciso rezar!

Os judeus de casacas pretas, cartola e tranças; as muçulmanas de burca,  da cabeça aos pés,  estão anos-luz  da evolução normal.   

Um judeu, vestido de negro (seria rabino?),  pediu para fazer uma prece, junto à base do  Muro das Lamentações, pelos filhos e mulher, como exigiu os  dólares  antes da reza, virei costas  agoniado!

Num hotel super chique (nas arábias é assim!),  da cidade do Cairo, onde  almoçava,  a mesa redonda ao lado foi ocupada por  muçulmanos,  em trajos festivos,  e talvez comemorativos de casamento,  onde uma dona  de  burca negra  mostrava  um cibinho de cara,  mal deixando  ver os olhos. Como iria comer?

Assisti a cenas  de cinema  ao vivo(!). Jamais as  poderei esquecer …

Os dedos, quase escondidos pelas mangas, agarravam os bocados de comida, previamente cortados, e  levantava uma espécie de babete,  dissimulada entre os olhos e o queixo,   e metia os nacos na boca!

Apesar de estar perto e  atento, não conseguia  ver-lhe  os lábios ou  os  dentes.

Escrever sobre a viuvez e não referir o Louva a Deus era  imperdoável! Ser tão  mimético e tão contrastante não temos outro nas nossas searas. Quando era menino acreditava no fervor religioso do Fernando,  quando o encontrava  entre as folhas do centeio, e  ao proferir:

 – Vê as como  patinhas da frente estão  postas a rezar a N.ª Senhora, e em  frente da boca!…

Quando soube, no Liceu, que esse par de patas do insecto funcionavam  como tenazes,  para matar outros bichos, deixei de acreditar na doutrina do Fernando.

Mais  tarde,  classifiquei a Louva a Deus como a viúva mais sádica da Zoologia.

Copula com o macho, enquanto lhe tritura e come  a cabeça, agarrada pelas tais patinhas de louvar a Deus!

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