NEBLINA

No Porto cedo madrugar

Sem bulício das ruas encontrar

Ensimesmado nos pensamentos

Entrei na neblina sem lamentos!

Pinguinhas de água entre casas

Névoa que lava chão

Coração com asas

Voaria na fraca escuridão!

Libertar azedumes da vida

Na Corujeira tem efeito

Liberta a desgraça padecida

Aliviado fica o peito.

O nevoeiro da apanha da azeitona

Sobe e desce das linhas de água

Ao deixar o sol bater na lona

A fogueira morre numa frágua!

 

 

 

     Porto, 5/6/13                                                                    José Gil

                                       jose.gcmonteiro@gmail.com

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 GUARDA – SOL                                                                                                 Gil Monteiro*        O guarda-sol será uma

 

GUARDA – SOL

                                                                                                 Gil Monteiro*       

 

O guarda-sol será uma espécie de guarda-chuva?!

No conceito de menino só podia dar no mesmo, pois desconhecia outros modos, ou outros usos, de proteger a cabeça do sol, na falta de chapéu ou lenço. Mais: os “artistas”, do tipo latoeiro, em digressão pela aldeia, eram designados por compõe louças e guarda- sois e não guarda-chuvas! Montava a “oficina” no largo, em frente da minha casa, depois de se fazer anunciado na única rua, do fundo ao cimo do povo, batendo as orelhas de um martelo no fundo duma velha sertã. As matracas da Semana Santa não conseguiam convocar tanta catraiada! Quando começava a trabalhar, ficava rodeado de mirones, e de olhos vivaços da pequenada! Os ensinamentos para aulas práticas não podiam ser mais eficientes por professor efetivo. Ainda, hoje, seria capaz de unir uma tijela partida, aplicando uns “gatos” de arame! …

 – António, vai levar o guarda-chuva ao guarda-soleiro, para por uma vara nova – dizia a Elisa para o filho, ainda sem idade de frequentar a Escola.

O António só conhecia o arrieiro a desmontar a avó da Magalhã, da cadeirinha da égua baia, protegida dos raios solares de junho, pelo guarda-chuva (sol) até entrar para a casa de visita. Nunca vira uma praia! Só o Sr. Ferreira e o Sr. Professor Antunes iam para as termas do Vidago. Os chapéus de palha, comprados pelo Santo António, protegiam do sol toda a gente, até os malhadores do centeio nas eiras.

Tantos anos a residir no Porto e nunca tinha visto, domingo de manhã, ao ir comprar o jornal, dois guarda-chuvas abertos a secarem na varanda de um andar do bairro! Como tempo tem sido muito invernoso, é preciso poupar o pano do bolor. Raramente, se ouve a gaita do amolador de tesouras e navalhas (facas), a passar pelas ruas. Mas mais adiante, encontrei um stande de automóveis ao ar livre, com os carros todos de capô e malas abertos para secarem.

No tempo de crise os roubos, os crimes, enfim, todo o mal social aumenta. Diria: sofre mais o pobre e há menos tranquilidade para o remediado ou rico.

 Passaram longas décadas, desde o tempo de a Joaquina ter ido para Paris fazer uma tese de mestrado. Os colegas, sem direito a essa regalia de complemento de instrução, resolveram ir visitá-la e conhecer a cidade Luz. Quando à noite passeavam, pela Concórdia e Pontes sobre o Sena, um ladrão de esticão, rouba a carteira à Joaquina! Perplexos, todos gritam e correm atrás do gatuno, enquanto a estimada amiga ria, ria!…

 – A carteira era velha, só continha papéis… Já era para ser furtada!

Recordei o acontecimento, quando na bonita cidade do Porto, com Pontes Modernas de nível mundial, me roubaram, na semana passada, um guarda-chuva baratucho e velho. Andava com ele no carro, servindo para uma emergência, o que se veio a verificar na rua de Costa Cabral. Necessitando de dar um recado breve ao João, a trabalhar numa sala de um rés-do-chão elevado, e como tinha de usar um truque, a fim de manter o guarda-chuva aberto, não o fechei, e meti-o dentro da porta aberta para a rua, subindo os poucos degraus. Nem um minuto demorou. O guarda-chuva foi roubado!

 Apanhei uns pingos de água até ao carro, mal estacionado, e sorri:

 O guarda-chuva já foi deitado ao lixo pelo ladrão!

 

 

Porto, 15 de maio de 2013

 

                                                                                   *José Gil Correia Monteiro

                                                                                 jose.gcmonteiro@gmail.com

                                                                                

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 TEMPO do TEMPO  Atrás de tempo, tempo vemNo firmamento

 

TEMPO do TEMPO

 

 

Atrás de tempo, tempo vem

No firmamento está escrito.

Os dias começam a encurtar

Não há solstício de aflito!

Caminhar para o etéreo

Estrada da satisfação

Caso muito sério

Quando a saúde diz não.

Chega a época do inverno

 Tempo de acolher animais.

Ciclo da Vida – Mundo eterno

Novas crias, novos enxovais.

Solstício de verão – chega o S. João

Calor aperta, tudo cresce

A romaria agradece.

Viva a praia e o melão!…

 

 

         Porto, 6/5/13                                                                                José Gil

                                                  jose.gcmonteiro@gmail.com

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ECOS de PÁSCOA

                                                                                          Gil Monteiro*

 

Os tempos de Páscoa e Pascoela passados avivaram sonhos e realidades. Este ano, foram mais fortes e fizeram refletir. Antes da chegada da alegria, no dia de Aleluia, os dias da Semana Santa foram vividos em Paranhos, na cidade do Porto, e não deixaram de lembrar os cavos córios, regados avinho do Porto, nas festividades dos Lázaros da rua dos Ferreiros de Vila Real ou o benzer dos ramos, pelo Sr. Prior, na igreja de São Martinho ou, ainda, os Compassos nas quintas do Douro (Miguel Torga diria Doiro), na segunda-feira de Páscoa.

Poder receber o cortejo da visita do Senhor Crucificado, em apartamento citadino, tem os seus quês. Foi preciso informar os condóminos, acertar a hora do acontecimento, e enfeitar a entrada do prédio, senha da passagem do Cortejo, no domingo de Pascoela. Felizmente, os verdes do átrio tinham raminhos de alecrim e oliveira, oferecidos por um vizinho, regressado da Régua! Algum alecrim, parte da novidade comovida, foi retido numa jarra!  

Não vendo a caldeirinha da água benta, nem ouvindo o som da campainha, senti que o tempo tinha voado para outra galáxia! O beijar da Cruz, limpa por paninho embebido em álcool, de pessoa para pessoa, pelos moradores, congregados no átrio, lembrou o Sr. Prior a dar a Bênção ao Povo de Roalde, já lusco-fusco do Domingo de Páscoa, na varanda granítica da Casa do Peitoril, e, enquanto os crentes regressavam às casas, o santo sacerdote montava a égua a caminho da Queda, ao encontro das casas dos moleiros!

A Páscoa comemora a ressurreição de Cristo. Era o tempo da libertação. O pavor da Semana Santa: com as imagens dos santos tapadas a panos pretos ou roxos, não se podia falar alto, nem as meninas faziam tranças novas, muito menos serem catadas dos piolhos (os inseticidas ainda não tinham chegado ao lugar!); a Mãe, livre da compra das bulas, a cumprir o jejum e abstinência, e mais…; até os bois não iam ao pasto! Só o toque da sineta à Aleluia podia desobrigar!

A vinda do tempo pascal era a revolução nas limpezas gerais da aldeia: as casas eram esfregadas, os caniços e os varais do fumeiro retirados, o forno preparado para cozer o pão e bolas, as roupas iam para a fonte da Tenaria lavar, algumas depois da barrela (!), os colchões das camas, de linho cru, eram lavados e recebiam novo folhelho das espigas de milho… As ruas eram “pavimentadas” a mato rasteiro, roçado nos montes dos donos das testadas das casas.

Nos campos, começavam as vessadas, principiando pelas leiras das encostas, menos encharcadas, e, importante, o fazer a horta, a fim de prover os legumes do ano.

Quando a sineta da capela anunciava a Aleluia, podia ser ouvida a Recoquinha dizer:

 – Ó António!? Vai meter as abóboras (pevides ou sementes), à horta, está a  está a badalar a sineta!

O Tó aproveitava para meter, na terra fofa e preparada, as sementes das suas cabaceiras. Ninguém as tinha como ele! Vi-as crescer enroladas nas estacas. Quando via as suas cabaças, portadoras de vinho, sorria de orgulho – eram coisas suas!

A Páscoa é a reunião das famílias em festa e nas cerimónias litúrgicas, vividas com muita intensidade. Foi nas Endoenças de São Martinho que apanhei um valente susto:

 Recordo, que dormia no colo da Mãe e ser despertado por gritos aflitivos… – Era o encontro de Nossa Senhora com o Filho, carregando a Cruz!

 

 

 

Porto, 10 de abril de 2013

 

                                                                                 *José Gil Correia Monteiro

                                                                                                   Jose.gcmonteiro@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ORVALHO

O orvalho dos teus olhos faz sonhar
Tanto provoca o sorriso como dá para chorar!
Observar humor aquoso tão lindo
Lembra gotinhas de baile findo.
Verão, noite quente, orvalho formado.
Manhãs frescas de milho crescido
Passar entre as folhas é ficar molhado
Procurar o amor é recado dado!
A gazela correr saltando no deserto
Deslumbra o olhar e o pensamento
Mas, são as gotas de orvalho bebidas
A permitir ao antílope o movimento!
Nas noitadas de São João do Porto,
Havia o gozo das rusgas e das orvalhadas
Os ardores amorosos acabavam
Raiando o dia, e ruas lavadas!

Porto, 20/3/13
José Gil
jose.gcmonteiro@gmail.com

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MARÃO

 

                                                                                         Gil Monteiro*

 

“ Marão não dá palha nem dá grão”, era o que mais ouvia nas brincadeiras e expressões de miúdo. A palavra enchia tanto a boca, na prenúncia, que tinha de se referir a algo muito grande!

Foi necessário o Sr. Prior de S. Martinho de Anta dar aulas de catequese, na capela da Nossa Senhora da Azinheira para, do alto serra, poder observar as montanhas do Marão! Os tempos livres, durante a aprendizagem da doutrina, eram passados na serrania, quase desprovida de árvores, excepto os famosos castanheiros ao redor da capela. Enquanto jogávamos às escondidas, entre penedos, procurávamos grutas e achados megalíticos (antas), e vejo o Fernando, de mão a fazer de pala na testa, a dizer:

 – São lindos os montes do Marão!

 – Para lá daqueles lados fica o Porto…

Um agricultor, sem olivais ou vinhas no Douro, tratava a primor as pequenas leiras ou lameiros, soutos ou pinhais e cuidava de parcelas de montes, de onde retirava lenha e mato, para as cortes dos animais, e estrume para os campos. O direito de limpar os terrenos, não usados na agricultura, era lucrativo e, por vezes, comprado por vizinhos ou outros lavradores.

Entre os vários prazeres do agricultor, há um que lhe é muito grato: mostrar as suas propriedades aos amigos interessados nas fainas campestres. E, quando ouve um piropo, do tipo: – O seu lameiro da Fonte é muito grande, é um Marão! A sua alma vai ao Céu (!) e quando, na adega oferecer vinho da pipa, ainda “ sonha” que está a ofertar o néctar dos deuses, em terras sagradas!

Só no tempo de frequentar o liceu, em Vila Real, é que palmilhei o Marão. Se nevava pela manhã, à saída das aulas a Foto Marius já apresentava fotografias, na montra da rua Central, e à tarde íamos, pela estrada da Campeã, ver o manto branco!

Tive a sorte de ter bons professores do ensino liceal, o melhor de todos foi o Dr. Catarino Nunes. Lembro o Dr. Godinho, a leccionar biologia e geologia, fazendo um ensino integrado no meio local.

S e os recursos mineralógicos das serras do Alvão (agora mais publicitada) e Marão foram objeto de estudo, principalmente as magnetites, o revestimento vegetal não foi esquecido; os fornos da Boavista e as” pelas” foram bem observadas.

Quem diria, anos idos, que o quartzo da serra passou a dar mais divisas a Portugal, e por ano, do que o vinho do Porto exportado! Falo dos áureos tempos da laboração da fábrica de silício de Bagauste (Régua),no tempo em que tínhamos energia barata e abundante das barragens do Douro. O polo de fabrico de silício passou para o Brasil, onde havia turbinas elétricas inativas, por falta de consumo energético!

Um dia, o Dr. Godinho pôs os alunos à prova:

 – Por que motivo a serra virada para Vila Real é nua e do lado da Pousada tem muito arvoredo?!

Matutando, matutando, um discípulo, lá descobriu o mistério.

 – Do lado do Porto os ventos são húmidos, subindo as montanhas perderam o vapor de água, logo…

Hoje o princípio não é tão verdadeiro, pois há a florestação científica, que conseguiu inverter os dados.

As encostas da Campeã têm terrenos “virgens”, muito humosos e produtivos. Alguns, já foram utilizados na produção de batata, tipo Montalegre. Os resultados foram muito bons, principalmente no uso dos tubérculos para replantar noutros locais transmontanos ou durienses.

 

 

Porto, 1 de março de 2013

 

                                                                                              *José Gil Correia Monteiro

                                                                                             jose.gcmonteiro@gmail.com

 

 

 

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MARÃO

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